quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

“Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”
(A Hora da Estrela). Clarice Lispector.


EM DEZ ANOS


Prólogo.

Longe daqui. E voar. E voando. Sempre com os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Talvez esse fosse o defeito. Talvez essa fosse a qualidade. E o mundo girando. Girando no nunca, girando no sempre. Sempre beirando a loucura, sempre na borda, sempre na inconstância da vida constante. Pois o viver agora é constante, e o viver daqui a dez anos também. Mas sempre há espaço, sempre sobre um espaço para as dúvidas do ser.



Em dez anos.
É agosto. E ele se pega pensando na medicina. Sempre na medicina, sempre. Últimos anos de residência, internos, chefia, bisturis, as vidas que passaram naquelas mãos e se foram, as vidas que passaram naquelas mãos e ficaram. E a medicina.
Desvairando-se dele, olhamos em volta e percebemos um apartamento vazio. De bom gosto, mas vazio. Não de móveis ou objetos, nem de matéria nenhuma, mas de almas. Há apenas ele, sentado em uma poltrona marrom na sala, e ao mesmo tempo não há ele. Há uma maquina de escrever também. Há cadernos e folhas e canetas e livros. Muitos livros. Lidos e guardados. Nunca se livrara do dom. Nunca se livrara da loucura. Ainda escreveria um livro. Quem sabe mais dez anos?
E pouco mais ao lado, em cima do sofá, uma câmera fotográfica cuidadosamente esquecida. O mundo dele gravado através daquelas lentes. O olhar poderia ser clínico, poderia repassar os livros lidos, decorados, o estudo, a ciência, a certeza e a lucidez. Mas a visão, essa era dele. Não era dos livros, não era da ciência, não era da lucidez. Era ele quem estava dos dois lados daquela câmera, e não em corpo, apenas em alma. Outro dom, outra loucura. Quem sabe quinze anos para essa.
Avançando um pouco mais o apartamento vazio e se dirigindo para o quarto, também vazio. No armário, as roupas, as palavras, as emoções, as cores. No armário, as peles que falavam por ele, que o mostravam, vendiam, alegravam, entristeciam, apaixonavam, viviam por e com ele. Outro mundo, outra parte da loucura, outra parte dele. A parte que ele mostrava, que ele usava, que ele era. Tanto para os outros como para ele. Sempre mais para ele, porque os outros são os outros, os outros não acordam todas as manhãs com a medicina e a loucura. Não acordam para o Sol que ele acorda, para as cores que ele acorda, para o dia que ele acorda.
Continuando, ao lado da cama, um objeto que entende de dor. Entende de raiva, solidão, amor, ódio, angústia e paixão. Uma raquete não deveria entender de tantos sentimentos assim, mas entende. Entende, pois faz parte da loucura, entende pois faz parte dele.
Um movimento. Um movimento, e sem aviso prévio, o corpo se levanta e se locomove até a câmera cuidadosamente esquecida no sofá, interrompendo aqui, a visita que fora constituída por objetos de dez anos de história e dez anos de loucura. Dez futuros anos de loucura. Ele, então, se direciona para a saca, observando o mundo lá em baixo, as pessoas que parecem formigas e os carros que acendem pelas ruas. A Lua lá em cima é gigante, e está toda amarela. Amarela como naquelas noites especiais, presenciadas por ele, em que algo está mudando em alguma parte do mundo. Ele aproxima então o olho biônico do clínico e dá o zoom, desbravando o mundo lá em baixo, até achar outra pessoa, desbravando o mundo lá em cima. Ela estava sentada em um banco naquela praça tão verde e escura. Ele vendo ela, ela vendo a Lua, e a Lua vendo eles dois.
E então algo mudou em algum lugar do mundo naquele momento.
Algo corre pelo pensamento dele, enquanto vê ela, que vê a Lua, que vê eles.
Algo imprevisível, algo que não devia ser pensando, que não devia ser verdade; mas era.
E o amor que havia esperado durante toda a existência passava diante daquele olho biônico, e chegava até ela, e ia até a Lua, e voltava.
E o pensamento escapou, virou voz, virou frase.

“Se eu existisse eu iria até lá".
Se eu existisse.... Mas não existo. Não existo, não posso ir até lá.
Não existo, o amor não existe. Não existo. Não existo por dez anos. E se eu soubesse, se eu soubesse que o amor em dez anos existiria... Mas foi tudo um devaneio rápido na madrugada. Dez anos no futuro. Dez anos que não existiram, uma vida que não existiu. E a noite, hoje, tem Lua amarela.


Epílogo.

O Sol sempre se punha àquela hora. E ele sempre estava lá para ver. Ele e ela. Não mais na sacada de um apartamento vazio, mas no jardim de uma casa no subúrbio. Sentados, discutiam o existencialismo de Sartre, enquanto aquele fenômeno da natureza era observado por tantos como eles. E então algo inesperado.

O olhar dele é desviado para o lado direito. E ali ele vê. Ali ele sente. Uma rosa. Não qualquer rosa. Uma rosa perfeita florescia naquele jardim, naquele final de tarde de outubro. E aquele rosa o lembrava dos olhos verdes. Do amor que há vinte e cinco anos havia ficado para trás. E o lembrou dos sorrisos, dos abraços, das frases e das palavras e onomatopéias trocadas com carinho. Das mentiras e do ódio que haviam ficado no lugar daquele amor. Um sorriso. E por um momento o mundo pareceu em paz. E nesse mesmo momento, do outro lado do mundo uma rosa também florescia em um jardim, lá longe, lá, no meio de todo aquele verde. Aquele verde vazio e confuso. Aquele verde que pertencia àqueles olhos. Aqueles olhos verdes.

Um comentário:

Campos de Morangos para sempre disse...

não gostei, acho que todas as coisas passam, acredite, daqui ha sei lá . . . uns dez anos, isso vai ser uma lembrança muito vaga em sua vida.