"A todos levei embora e, se houve um momento em que precisei de distração, foi esse. Em completa desolação, olhei para o mundo lá em cima. Vi o céu transformar-se de prata em cinza e em cor de chuva. Até as nuvens tantavam fugir.
Vez por outra, eu imaginava como seria tudo acima daquelas nuvens, sabendo, sem sombra de dúvida, que o Sol era louro e a atmosfera interminável era um gigantesco olho azul."
Ela me olhava de forma definitiva.
Um julgamento, talvez. Algo de fácil compreensão, uma vez que eu já havia passado do ponto naquela rua escura, misturando lágrimas salgadas com vômito doce.
E enquanto eu gritava e atordoava naquela rua fria, ela me olhava. Mais nada, só me olhava. Nem ao menos piedosas palavras escapavam de seus lábios prensados. Apenas o olhar característico daquela noite iluminada.
Era algo cuja essência eu ainda não entendia. Não iria entender até muito tempo depois, quando os olhos secariam e o vômito cessaria. O que demorou anos.
E durante todos aqueles minutos eu me perguntava o que ela queria dizer com aquele olhar de características mórbidas e sombrias; de uma só nota.
O dia foi tomando o lugar da lua. E a luz, agora natural, iluminava aquela cena. Eu, no chão. Deitado, meio morto. Uma poça de algo que não era eu do meu lado; e ela me olhando.
Não entendia o que estava acontecendo ali. Os carros me desviavam e eu acordei com ela do meu lado. Deitada ali comigo naquela imundice doce, salgada, que agora era eu.
Uma coisa doeu por dentro e queimou. Ela me abraçou lacrando aquela dor em mim pra sempre. Disse que agora era o fim. Que não poderia fazer nada, e eu lembro que a separação daqueles lábios doía mais do que o olhar definitivo.
Sentei-me; sentou-se.
E era como se ela havia entrado em mim. Naquele momento ela estava dentro de mim. Naquela dor, naquela ardência. Queria estar nela também, mas já não era possível.
E ali ela ficou. Dentro de mim; e eu fora dela.
Levantou e foi embora.
E equanto ela ia, eu sabia que não conseguiria reunir as forças necessárias para levantar e correr ao encontro dela. Dizer que estava tudo bem, que erros acontecem, que a vida é assim.
Eu não conseguiria mentir.
E ela sabia disso.
E enquanto ela ia, eu percebia as letras negras que marcavam o meu braço.
Ainda não entendia o que havia acontecido.
Mas sabia que estava chegando o fim. E isso doía por dentro. Ela me doía por dentro.
E eu continuei ali, doendo.
Por dias, por mêses, por anos.
domingo, 28 de dezembro de 2008
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