domingo, 28 de dezembro de 2008
BORDERLINE
Vez por outra, eu imaginava como seria tudo acima daquelas nuvens, sabendo, sem sombra de dúvida, que o Sol era louro e a atmosfera interminável era um gigantesco olho azul."
Ela me olhava de forma definitiva.
Um julgamento, talvez. Algo de fácil compreensão, uma vez que eu já havia passado do ponto naquela rua escura, misturando lágrimas salgadas com vômito doce.
E enquanto eu gritava e atordoava naquela rua fria, ela me olhava. Mais nada, só me olhava. Nem ao menos piedosas palavras escapavam de seus lábios prensados. Apenas o olhar característico daquela noite iluminada.
Era algo cuja essência eu ainda não entendia. Não iria entender até muito tempo depois, quando os olhos secariam e o vômito cessaria. O que demorou anos.
E durante todos aqueles minutos eu me perguntava o que ela queria dizer com aquele olhar de características mórbidas e sombrias; de uma só nota.
O dia foi tomando o lugar da lua. E a luz, agora natural, iluminava aquela cena. Eu, no chão. Deitado, meio morto. Uma poça de algo que não era eu do meu lado; e ela me olhando.
Não entendia o que estava acontecendo ali. Os carros me desviavam e eu acordei com ela do meu lado. Deitada ali comigo naquela imundice doce, salgada, que agora era eu.
Uma coisa doeu por dentro e queimou. Ela me abraçou lacrando aquela dor em mim pra sempre. Disse que agora era o fim. Que não poderia fazer nada, e eu lembro que a separação daqueles lábios doía mais do que o olhar definitivo.
Sentei-me; sentou-se.
E era como se ela havia entrado em mim. Naquele momento ela estava dentro de mim. Naquela dor, naquela ardência. Queria estar nela também, mas já não era possível.
E ali ela ficou. Dentro de mim; e eu fora dela.
Levantou e foi embora.
E equanto ela ia, eu sabia que não conseguiria reunir as forças necessárias para levantar e correr ao encontro dela. Dizer que estava tudo bem, que erros acontecem, que a vida é assim.
Eu não conseguiria mentir.
E ela sabia disso.
E enquanto ela ia, eu percebia as letras negras que marcavam o meu braço.
Ainda não entendia o que havia acontecido.
Mas sabia que estava chegando o fim. E isso doía por dentro. Ela me doía por dentro.
E eu continuei ali, doendo.
Por dias, por mêses, por anos.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
10,000 Deaths in a Sunday Night.
[No final, nosso tempo é dos outros.
Nosso tempo é os outros.
E eu e você?
Somos os outros dos outros.
Daqueles que ficaram e se foram. E se foram para casas, cidades, bebidas, e fim.]
Começa com um aperto de mão. E melancolia.
Na verdade, começa com o acaso. Numa noite fria e sem rumo.
O som do Sol se pondo só o fez lembrar que quando ele surgisse novamente, do outro lado, mais perto, ele estaria sozinho de novo. E o mundo desabava. E a solidão era imensa; o mundo era imenso, um poço imenso de solidão.
E então o acaso. O aperto de mão e toda a tristeza naquele cumprimento epidermial momentâneo. O olhar correspondido. E aí, aquela mão se assentou na cadeira de plástico barata ao lado, e nunca deixava o copo dele vazio, os dedos sem o cigarro, era quase como se fosse uma importância desimportante, com um desconhecido que precisava de algo, de alguém. O reconhecimento foi imediato. O destino traçado também.
Uma relação inteira passou pels íris daquele do copo vazio. Claro, um possível amor. Como sempre, como com todos aqueles que o seguravam do precipício com o gesto mais ingênuo, sem ao menos saberem disso. Mas dessa vez, dessa vez era para ser diferente, dessa vez foi o acaso.
Em um mundo perfeito, ele teria ficado, o copo cada vez mais cheio, os olhares mais intensos, as pequenas faíscas do amor verdadeiro brotariam ali, naquela noite escura e solitária. E a história começaria ali, com aquelas testemunhas, com aquele amor nascido do acaso. Mas, o mundo não é perfeito, e a atitude impensável e infundada dele fez aquela noite acabar mais cedo. O mundo não é perfeito, e são necessários erros, erros para atingir a perfeição. Mas nesse caso, o erro foi fatal. Foi decisivo como o acaso. O acaso lhe trouxe o amor, o erro lhe trouxe o ódio.
E assim acabou o prelúdio. Carro, casa, cama, sonho, final.
"Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor.
Pois se eu me comovia vendo você; pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu deus como você me doía vezenquando.
Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma
praça. Então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme, só olhando você, sem dizer nada, só olhando olhando, olhando e pensando meu deus ah meu deus como você me dói vezenquando."
[CONTINUA]
domingo, 14 de dezembro de 2008
From my past relashionships I learned:
Deve-se doar e receber.
E no final, fica tudo trocado. E você sente por dois.
E pode até sofrer por dois.
Mas nada disso importa. O que importa é que você foi outra pessoa. E nessa troca de almas, desejos, sonhos e tristezas, houve amor. Pode não ter sido muito, mas houve.
E isso é o suficiente para quando tudo acabar você conseguir seguir em frente.
Houve amor, não importa quando, não importa a intensidade.
O que é importa é que houve. Houve e foi mútuo.
LP3
EU — É possível um rio secar completamente?
ELA — Claro que é.
EU — Mas será que ele não enche depois? Nunca mais?
ELA — Alguns sim, outros não.
EU — Mas nunca mais?
ELA — Sei lá, acho que não.
EU — Você tem certeza?
ELA — Certeza eu não tenho. Só estou dizendo que acho. Afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
EU — Sabe...
ELA — O quê?
EU — Eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia."
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
“Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”
(A Hora da Estrela). Clarice Lispector.
Prólogo.
Longe daqui. E voar. E voando. Sempre com os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Talvez esse fosse o defeito. Talvez essa fosse a qualidade. E o mundo girando. Girando no nunca, girando no sempre. Sempre beirando a loucura, sempre na borda, sempre na inconstância da vida constante. Pois o viver agora é constante, e o viver daqui a dez anos também. Mas sempre há espaço, sempre sobre um espaço para as dúvidas do ser.
Em dez anos.
É agosto. E ele se pega pensando na medicina. Sempre na medicina, sempre. Últimos anos de residência, internos, chefia, bisturis, as vidas que passaram naquelas mãos e se foram, as vidas que passaram naquelas mãos e ficaram. E a medicina.
Desvairando-se dele, olhamos em volta e percebemos um apartamento vazio. De bom gosto, mas vazio. Não de móveis ou objetos, nem de matéria nenhuma, mas de almas. Há apenas ele, sentado em uma poltrona marrom na sala, e ao mesmo tempo não há ele. Há uma maquina de escrever também. Há cadernos e folhas e canetas e livros. Muitos livros. Lidos e guardados. Nunca se livrara do dom. Nunca se livrara da loucura. Ainda escreveria um livro. Quem sabe mais dez anos?
E pouco mais ao lado, em cima do sofá, uma câmera fotográfica cuidadosamente esquecida. O mundo dele gravado através daquelas lentes. O olhar poderia ser clínico, poderia repassar os livros lidos, decorados, o estudo, a ciência, a certeza e a lucidez. Mas a visão, essa era dele. Não era dos livros, não era da ciência, não era da lucidez. Era ele quem estava dos dois lados daquela câmera, e não em corpo, apenas
Avançando um pouco mais o apartamento vazio e se dirigindo para o quarto, também vazio. No armário, as roupas, as palavras, as emoções, as cores. No armário, as peles que falavam por ele, que o mostravam, vendiam, alegravam, entristeciam, apaixonavam, viviam por e com ele. Outro mundo, outra parte da loucura, outra parte dele. A parte que ele mostrava, que ele usava, que ele era. Tanto para os outros como para ele. Sempre mais para ele, porque os outros são os outros, os outros não acordam todas as manhãs com a medicina e a loucura. Não acordam para o Sol que ele acorda, para as cores que ele acorda, para o dia que ele acorda.
Continuando, ao lado da cama, um objeto que entende de dor. Entende de raiva, solidão, amor, ódio, angústia e paixão. Uma raquete não deveria entender de tantos sentimentos assim, mas entende. Entende, pois faz parte da loucura, entende pois faz parte dele.
Um movimento. Um movimento, e sem aviso prévio, o corpo se levanta e se locomove até a câmera cuidadosamente esquecida no sofá, interrompendo aqui, a visita que fora constituída por objetos de dez anos de história e dez anos de loucura. Dez futuros anos de loucura. Ele, então, se direciona para a saca, observando o mundo lá em baixo, as pessoas que parecem formigas e os carros que acendem pelas ruas. A Lua lá em cima é gigante, e está toda amarela. Amarela como naquelas noites especiais, presenciadas por ele, em que algo está mudando em alguma parte do mundo. Ele aproxima então o olho biônico do clínico e dá o zoom, desbravando o mundo lá em baixo, até achar outra pessoa, desbravando o mundo lá
E então algo mudou em algum lugar do mundo naquele momento.
Algo corre pelo pensamento dele, enquanto vê ela, que vê a Lua, que vê eles.
Algo imprevisível, algo que não devia ser pensando, que não devia ser verdade; mas era.
E o amor que havia esperado durante toda a existência passava diante daquele olho biônico, e chegava até ela, e ia até a Lua, e voltava.
E o pensamento escapou, virou voz, virou frase.
“Se eu existisse eu iria até lá".
Se eu existisse.... Mas não existo. Não existo, não posso ir até lá.
Não existo, o amor não existe. Não existo. Não existo por dez anos. E se eu soubesse, se eu soubesse que o amor em dez anos existiria... Mas foi tudo um devaneio rápido na madrugada. Dez anos no futuro. Dez anos que não existiram, uma vida que não existiu. E a noite, hoje, tem Lua amarela.
Epílogo.
O Sol sempre se punha àquela hora. E ele sempre estava lá para ver. Ele e ela. Não mais na sacada de um apartamento vazio, mas no jardim de uma casa no subúrbio. Sentados, discutiam o existencialismo de Sartre, enquanto aquele fenômeno da natureza era observado por tantos como eles. E então algo inesperado.
O olhar dele é desviado para o lado direito. E ali ele vê. Ali ele sente. Uma rosa. Não qualquer rosa. Uma rosa perfeita florescia naquele jardim, naquele final de tarde de outubro. E aquele rosa o lembrava dos olhos verdes. Do amor que há vinte e cinco anos havia ficado para trás. E o lembrou dos sorrisos, dos abraços, das frases e das palavras e onomatopéias trocadas com carinho. Das mentiras e do ódio que haviam ficado no lugar daquele amor. Um sorriso. E por um momento o mundo pareceu
domingo, 7 de dezembro de 2008
[passado 1]
Tudo o que havia eram dois corpos deitados em um colchão. Molhados, salgados, vazios.
O vento soprava lá fora. E trazia palavras. E trazia vida.
As letras se juntavam com a força cinética que se projetavam sobre elas. Inocentemente descreviam o que estava prestes a acontecer. E com o vento veio a Lua. E com a Lua veio as palavras. E com as palavras, enfim, chegou o sentimento infinito e tão cuidadosamente evitado até então. O início do fim se propagava silenciosamente pelo corredor vazio rumo ao quarto entreaberto.
Os olhos se desencerraram e o reconhecimento do corpo ao lado foi mútuo. O sentimento dilaceroso também.
O nascimento do amor, e posteriormente do ódio, foi datado naquele mesmo instante, só mesmo quem estava lá para entender uma cena tão triste e tão, tão revoltante.
Um episódio assim é visto poquíssimas vezes numa existência carnal. E lamentado tantas outras.