domingo, 14 de dezembro de 2008

From my past relashionships I learned:

Que deve-se doar tudo. Todas as palavras, todas as lágrimas, todos os sorrisos, os momentos de angústia, fraqueza, dor, solidão.
Deve-se doar e receber.
E no final, fica tudo trocado. E você sente por dois.
E pode até sofrer por dois.
Mas nada disso importa. O que importa é que você foi outra pessoa. E nessa troca de almas, desejos, sonhos e tristezas, houve amor. Pode não ter sido muito, mas houve.
E isso é o suficiente para quando tudo acabar você conseguir seguir em frente.
Houve amor, não importa quando, não importa a intensidade.
O que é importa é que houve. Houve e foi mútuo.

LP3

"Houve um tempo em que tive um rio por dentro, mas acabou secando.
EU — É possível um rio secar completamente?
ELA — Claro que é.
EU — Mas será que ele não enche depois? Nunca mais?
ELA — Alguns sim, outros não.
EU — Mas nunca mais?
ELA — Sei lá, acho que não.
EU — Você tem certeza?
ELA — Certeza eu não tenho. Só estou dizendo que acho. Afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
EU — Sabe...
ELA — O quê?
EU — Eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia."

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

“Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”
(A Hora da Estrela). Clarice Lispector.


EM DEZ ANOS


Prólogo.

Longe daqui. E voar. E voando. Sempre com os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Talvez esse fosse o defeito. Talvez essa fosse a qualidade. E o mundo girando. Girando no nunca, girando no sempre. Sempre beirando a loucura, sempre na borda, sempre na inconstância da vida constante. Pois o viver agora é constante, e o viver daqui a dez anos também. Mas sempre há espaço, sempre sobre um espaço para as dúvidas do ser.



Em dez anos.
É agosto. E ele se pega pensando na medicina. Sempre na medicina, sempre. Últimos anos de residência, internos, chefia, bisturis, as vidas que passaram naquelas mãos e se foram, as vidas que passaram naquelas mãos e ficaram. E a medicina.
Desvairando-se dele, olhamos em volta e percebemos um apartamento vazio. De bom gosto, mas vazio. Não de móveis ou objetos, nem de matéria nenhuma, mas de almas. Há apenas ele, sentado em uma poltrona marrom na sala, e ao mesmo tempo não há ele. Há uma maquina de escrever também. Há cadernos e folhas e canetas e livros. Muitos livros. Lidos e guardados. Nunca se livrara do dom. Nunca se livrara da loucura. Ainda escreveria um livro. Quem sabe mais dez anos?
E pouco mais ao lado, em cima do sofá, uma câmera fotográfica cuidadosamente esquecida. O mundo dele gravado através daquelas lentes. O olhar poderia ser clínico, poderia repassar os livros lidos, decorados, o estudo, a ciência, a certeza e a lucidez. Mas a visão, essa era dele. Não era dos livros, não era da ciência, não era da lucidez. Era ele quem estava dos dois lados daquela câmera, e não em corpo, apenas em alma. Outro dom, outra loucura. Quem sabe quinze anos para essa.
Avançando um pouco mais o apartamento vazio e se dirigindo para o quarto, também vazio. No armário, as roupas, as palavras, as emoções, as cores. No armário, as peles que falavam por ele, que o mostravam, vendiam, alegravam, entristeciam, apaixonavam, viviam por e com ele. Outro mundo, outra parte da loucura, outra parte dele. A parte que ele mostrava, que ele usava, que ele era. Tanto para os outros como para ele. Sempre mais para ele, porque os outros são os outros, os outros não acordam todas as manhãs com a medicina e a loucura. Não acordam para o Sol que ele acorda, para as cores que ele acorda, para o dia que ele acorda.
Continuando, ao lado da cama, um objeto que entende de dor. Entende de raiva, solidão, amor, ódio, angústia e paixão. Uma raquete não deveria entender de tantos sentimentos assim, mas entende. Entende, pois faz parte da loucura, entende pois faz parte dele.
Um movimento. Um movimento, e sem aviso prévio, o corpo se levanta e se locomove até a câmera cuidadosamente esquecida no sofá, interrompendo aqui, a visita que fora constituída por objetos de dez anos de história e dez anos de loucura. Dez futuros anos de loucura. Ele, então, se direciona para a saca, observando o mundo lá em baixo, as pessoas que parecem formigas e os carros que acendem pelas ruas. A Lua lá em cima é gigante, e está toda amarela. Amarela como naquelas noites especiais, presenciadas por ele, em que algo está mudando em alguma parte do mundo. Ele aproxima então o olho biônico do clínico e dá o zoom, desbravando o mundo lá em baixo, até achar outra pessoa, desbravando o mundo lá em cima. Ela estava sentada em um banco naquela praça tão verde e escura. Ele vendo ela, ela vendo a Lua, e a Lua vendo eles dois.
E então algo mudou em algum lugar do mundo naquele momento.
Algo corre pelo pensamento dele, enquanto vê ela, que vê a Lua, que vê eles.
Algo imprevisível, algo que não devia ser pensando, que não devia ser verdade; mas era.
E o amor que havia esperado durante toda a existência passava diante daquele olho biônico, e chegava até ela, e ia até a Lua, e voltava.
E o pensamento escapou, virou voz, virou frase.

“Se eu existisse eu iria até lá".
Se eu existisse.... Mas não existo. Não existo, não posso ir até lá.
Não existo, o amor não existe. Não existo. Não existo por dez anos. E se eu soubesse, se eu soubesse que o amor em dez anos existiria... Mas foi tudo um devaneio rápido na madrugada. Dez anos no futuro. Dez anos que não existiram, uma vida que não existiu. E a noite, hoje, tem Lua amarela.


Epílogo.

O Sol sempre se punha àquela hora. E ele sempre estava lá para ver. Ele e ela. Não mais na sacada de um apartamento vazio, mas no jardim de uma casa no subúrbio. Sentados, discutiam o existencialismo de Sartre, enquanto aquele fenômeno da natureza era observado por tantos como eles. E então algo inesperado.

O olhar dele é desviado para o lado direito. E ali ele vê. Ali ele sente. Uma rosa. Não qualquer rosa. Uma rosa perfeita florescia naquele jardim, naquele final de tarde de outubro. E aquele rosa o lembrava dos olhos verdes. Do amor que há vinte e cinco anos havia ficado para trás. E o lembrou dos sorrisos, dos abraços, das frases e das palavras e onomatopéias trocadas com carinho. Das mentiras e do ódio que haviam ficado no lugar daquele amor. Um sorriso. E por um momento o mundo pareceu em paz. E nesse mesmo momento, do outro lado do mundo uma rosa também florescia em um jardim, lá longe, lá, no meio de todo aquele verde. Aquele verde vazio e confuso. Aquele verde que pertencia àqueles olhos. Aqueles olhos verdes.

domingo, 7 de dezembro de 2008

[passado 1]

E não havia ninguém naquela casa. Ninguém que amasse, ninguém que fosse amado.
Tudo o que havia eram dois corpos deitados em um colchão. Molhados, salgados, vazios.
O vento soprava lá fora. E trazia palavras. E trazia vida.
As letras se juntavam com a força cinética que se projetavam sobre elas. Inocentemente descreviam o que estava prestes a acontecer. E com o vento veio a Lua. E com a Lua veio as palavras. E com as palavras, enfim, chegou o sentimento infinito e tão cuidadosamente evitado até então. O início do fim se propagava silenciosamente pelo corredor vazio rumo ao quarto entreaberto.
Os olhos se desencerraram e o reconhecimento do corpo ao lado foi mútuo. O sentimento dilaceroso também.
O nascimento do amor, e posteriormente do ódio, foi datado naquele mesmo instante, só mesmo quem estava lá para entender uma cena tão triste e tão, tão revoltante.
Um episódio assim é visto poquíssimas vezes numa existência carnal. E lamentado tantas outras.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

eu

quero frio, quero tristeza, sofrimento, dor.
quero fracasso, quero ódio, inveja, escuridão.
quero abandono, raiva, medo, insegurança.
quero culpa, quero fome, injustiça, trevas.
quero mentira, quero vergonha, sujeira, contaminação.
quero doença, desastre e morte.
quero tudo isso pra mim.
mas só pra mim.
quero que não sobre nada pra ninguém.

lírios brancos e poesia.

e eu agora me chamo trevas.
porque tudo que era luz, agora derrama escuridão.
tudo que sorria, agora se quebra em prantos.
e a existência que um dia fora girassóis e balas de menta,
agora são lírios brancos; lírios brancos e poesia.


quando o amor primordial acaba, a vida não continua.
morre naquele mesmo instante.
e a existência,
essa se torna maldita por toda eternidade.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

escorreescorreescorre


e a felicidade virou água.
e agora ela escorre lentamente misturada com o sangue que escapa daqueles olhos presos.
procurando a liberdade condicional.
procurando uma próxima vítima.

porque a felicidade é uma assasina de série.
daquelas que disfarçam muito bem ser tudo o que você precisa e daí aparecem com um machado ou uma chave de fenda afiada na porta do banheiro enquanto você se olha no espelho distraído.
e seu método mais eficaz inclui um coração, dois pares de lábios e algumas palavras que são trocadas rapidamente em algum colchão úmido e mal-lavado.

o mais irritante nesse vai-e-vem de corpos, almas e corações é que ela sempre sai ilesa.
sempre saiu, sempre sairá.
pois do mesmo modo que a felicidade é uma daquelas vadias inevitáveis de salto agulha que ninguém quer encontrar naquela festa, sempre haverá um ser humano cegado pela vontade infinita de achar algo a mais durante seu tempo útil, achando que a felicidade existe de fato.