os olhos são fechados.
e é como se uma bolha de ar estivesse se formando dentro de mim; e é como se o ar dentro dela fossem palavras.
e a bolha aumenta.
e começa a sair em forma de lágrimas involuntárias, explodindo em forma de gostas salinas, que queimam e purificam, e escorrem toda a agonia, o desespero e a dor pra fora.
aí levanto.
me direciono ao banheiro, sentindo as palavras que não saíram caíndo pela barra da minha calça e fazendo um rastro enorme de sentimentos pelo chão; sentimentos molhados, escondidos e envergonhados.
pego uma escova, um sabonete e ligo a água na temperatura aliviante de vinte e oito graus.
enquanto esfrego minha pele suja, vejo muito mais que água escorrendo pelo ralo, vejo minha vida inteira refletida naquele líquido incolor e sem gosto.
aí percebo.
sou incolor e sem gosto.
a vida na qual pensei ter sido felizmente bem-sucedido foi na realidade um fracasso; construí meu castelo em areia.
e agora, ela era movediça.
quando a pele das costas de minha mão começou a se desgastar desliguei a água.
limpei as palavras que ainda escorriam de meus olhos, e olhei para o espelho.
a visão era levemente embaçada.
a imagem começou a se formar do outro lado e os raios de luz perfuravam minha íris.
pasmo enquanto via o que havia então me tornado, acreditando que era mentira, uma peça pregada em mim pelo outro lado do espelho, possivelmente querendo vingança de tantas horas gastas por pura vaidade, olhei para o chão e confirmei o que o espelho me mostrava.
eu havia sumido.
domingo, 19 de outubro de 2008
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