Ao entrar na sala, seus olhos abriram-se subitamente, mais do que já estavam abertos antes, para absorver todas as cores, todas as formas, todas as suas últimas imagens, a agulha, o veneno, a face levemente retorcida dos que o assistiam através do espesso bloco de vidro na parte superior direita da sala. Ele sabia que dali nunca mais iria sair; ele sabia que em trinta a quartenta minutos sua vida seria apenas uma memória para as pessoas que o conheceram.
As imagens dos rostos e aspectos físicos de todos que já conhecera saltaram em seus pensamentos, como se estivessem dentro de uma caixa já saturada, que acabara de explodir, e então seu primeiro instinto foi selecionar todos aqueles que realmente se lembrariam dele ou que pelo menos haviam sido afetados pela sua maldita existência.
Subitamente uma luz prateada e morna infiltrou-se por entre sua pupila e fez seus olhos arderem; o show estava prestes a começar.
Seus olhos ficaram inativos e imprestáveis pelos respectivos segundos, e seu coração disparou levemente, intercalando-se entre uma acelerada e outra, esporadicamente cessando.
Empurraram-o levemente e ele entendeu o recado, vagarosamente sentou-se na cadeira a sua frente e enquanto o amarravam pelas mãos e pés, ele lembrou-se da única coisa que havia dado um significado a sua vida. Lembrou-se da sua única alegria, da sua única vontade, do único hábito que o mantivera vivo até esse ponto. Lembrou-se de suas cartas, poemas, críticas, artigos, livros, frases, verbos, letras, pontuações. Sua existência inteira tivera apenas uma razão, tivera apenas um propósito, sua existência foi destinada a arte das palavras. Nunca tivera, porém, nada publicado, todas as suas aventuras eram experimentais; isso pelo menos até terminar o jornalismo. Lembrou-se dos gloriosos primeiros semestres, e gradualmente foi se instalando a tão inevitável depressão antagônica. Nunca iria terminar seu curso, nunca iria ser um grande jornalista científico como sonhara uma vez em seu quarto. Porém tinha certeza de que todo o seu esforço não fora em vão, sabia que iriam encontrar toda a sua vida resumida em palavras e em encontros consonantais cuidadosamente arquitetados. Sentiu-se um pouco melhor por isso.
Distraído, nem sentiu a agulha penetrando sua pele, mas após distrair-se de seus pensamentos e ver a agulha cravada em seu braço contraiu seu músculo, causando uma pontada de dor suave e uma gota de sangue solitária a surgir por entre a agulha.
Nos minutos que se sucederam, pôde sentir o veneno lentamente entrando em sua corrente sanguínea e movimentando-se uniformemente com suas plaquetas e seus glóbulos brancos em direção ao seu cérebro.
Fechou os olhos e esperou pela primeira convulsão de infinitas a se seguirem. Ao final de exatos dois minutos e três segundos [ele havia contado], começou.
Três agonizantes mortes depois ele abaixou a cabeça e ficou esperando enquanto seu corpo tentava lutar contra as toxinas invasoras. Sabia que era em vão, e já estava se acostumando com a idéia de descansar em meio os indescansáveis. Gradualmente sua visão foi cedendo, e enquanto uma cortina negra se fechava sentiu o próximo tremor se aproximando, fechou seus olhos que encontravam-se alagados de lágrimas e dor, e para sua surpresa se sentiu finalmente vivo. Sentiu-se como se sua existência tivera algum sentido, sentiu-se finalmente humano. Uma palavra escapara por entre seus lábios e então sua alma lentamente seguiu para o desconhecido; finalmente paz.
Os carrascos que o haviam trazido ali desamarraram seus restos mortais e o colocaram em uma maca que mais tarde iria ser direcionada ao necrotério, após a multidão ter desaparecido tão rapidamente como se tivesse se dissipado no ar, as luzes foram apagadas e então a sala ficou vazia, o mundo sem perceber ficou inteiramente em silêncio por um segundo, e durante esse segundo todos os corações sentiram um vazio, por menor que fossem, sentiram que haviam perdido uma parte de si, a parte que os fazia únicos, a parte que os deixava em paz consigo mesmo, a parte que era suprimida, que todos lutavam contra a expor, e que sabia que alguém havia feito e pagara um preço precioso por isso.
Eram 11:39 da noite.
quarta-feira, 12 de março de 2008
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